Sim, a bactéria da Peste Negra (Yersinia pestis) existe hoje, em roedores selvagens e pulgas de vários continentes, inclusive no Brasil. Ela não vira pandemia porque hoje se conhece o agente, antibióticos comuns curam a doença se dados cedo, e o contágio entre pessoas só ocorre na forma pneumônica, com contatos próximos tratados preventivamente. Sobre o caso de Irkutsk, na Rússia, a causa da morte da funcionária ainda não estava confirmada nas informações disponíveis em 9 de outubro de 2026.123
Em 2 de outubro de 2026, em Irkutsk, na Sibéria, uma funcionária de 28 anos de um instituto antipeste morreu. Quase 200 pessoas que tiveram contato com ela entraram em observação, e a suspeita levantada foi a bactéria da peste. A Organização Mundial da Saúde (OMS) disse que ainda não conseguia fazer uma avaliação de risco; a Rússia chamou de falsa a informação sobre peste.45
Então a Peste Negra voltou? A resposta é mais estranha: ela nunca foi embora.
1O caso: fato e boato
O que é fato, segundo a imprensa internacional: Irkutsk fica perto do lago Baikal e abriga um dos institutos antipeste que a Rússia mantém há décadas só para vigiar a doença. Por volta de 2 de outubro, uma funcionária de 28 anos morreu. O jornal russo Izvestia, citado pela BBC, diz que 197 pessoas que tiveram contato com ela passaram a ser acompanhadas.4

A partir daí as versões divergem. Uma autoridade local chegou a falar em peste; o órgão federal de saúde da Rússia passou a falar em "pneumonia de origem indeterminada". Em 7 de outubro, o diretor da OMS, Tedros Adhanom, disse não ter informação suficiente para uma avaliação completa de risco. Estados Unidos e União Europeia cobraram transparência, e a Rússia nega que haja um segundo caso.45 A OMS também pediu à Rússia detalhes sobre relatos da imprensa de uma segunda funcionária do instituto com pneumonia de causa indeterminada. No mesmo dia, o órgão federal de saúde russo disse que não há risco de epidemia: segundo ele, mais de 90% dos contatos já tinham terminado a observação e quase 5 mil exames não encontraram micro-organismo perigoso. O Kremlin chamou de falsa "a grande maioria" do que a imprensa publicou. Um site local, com fontes anônimas, afirmou que foi peste; até 9 de outubro, nenhuma autoridade confirmou.13
Circulam também boatos: um tubo de amostra quebrado no laboratório, uma expedição de campo, hospitais fechados. Até onde as fontes mostram, nada disso foi confirmado. A morte é fato; a causa, não.
2A bactéria e as três formas
A Yersinia pestis foi identificada em 1894, em Hong Kong, pelo médico Alexandre Yersin.6 "Peste Negra" é o apelido histórico da grande epidemia do século 14. A doença se chama peste, e a bactéria de hoje é a mesma daquela época.

Segundo a OMS, ela pode atacar de três formas:
- Bubônica, a mais comum: começa com a picada de uma pulga infectada, e as ínguas incham, os bubões. Quase não passa de pessoa para pessoa.
- Septicêmica, quando a bactéria cai no sangue: pode vir de qualquer outra forma.
- Pneumônica, nos pulmões: é a única que passa de pessoa para pessoa, por partículas respiratórias. Os sintomas podem surgir em 24 horas, e sem tratamento a OMS descreve a forma como quase sempre fatal, às vezes em menos de um dia.1
Por isso uma suspeita de peste pneumônica leva um país a vigiar duzentas pessoas.
3Doze navios
Em outubro de 1347, doze galés de Gênova, vindas do mar Negro, entraram no porto de Messina, na Sicília. Segundo relatos da época, quase ninguém a bordo estava vivo; os que estavam, estavam doentes. As autoridades expulsaram os navios do porto, mas a doença já estava na cidade. Os moradores fugiram e levaram a peste pela ilha, no inverno ela já estava no continente e, em poucos anos, atravessou a Europa.7 Quando a onda passou, tinham morrido mais de 50 milhões de pessoas, segundo a OMS.1

4Por que ela nunca sumiu
A bactéria nunca precisou de gente. Ela vive em roedores selvagens e viaja nas pulgas. Esses lugares são os focos naturais, que existem em todos os continentes, menos na Oceania. Na Rússia, um deles fica na fronteira com a Mongólia, onde a bactéria circula entre marmotas, e é por isso que existem institutos antipeste na Sibéria.1
A gente entra por acidente. Em 2019, na Mongólia, um casal comeu carne e rim crus de marmota, acreditando que fazia bem à saúde, e os dois morreram de peste. A região ficou seis dias em quarentena, e a OMS informou que 118 pessoas que tiveram contato com eles foram isoladas e receberam antibiótico.8 Nos Estados Unidos, segundo o CDC, há em média sete casos por ano, a maioria no oeste, onde a bactéria circula entre cães-da-pradaria.3 A maioria dos casos humanos no mundo está no Congo e em Madagascar, onde há registros quase todo ano, numa temporada de setembro a abril.1

5Por que hoje não vira pandemia
- Hoje se sabe quem é o culpado. Em Messina, ninguém conhecia a bactéria nem a pulga, e os ratos viviam junto das pessoas, nas casas, nos navios e nos celeiros.
- O antibiótico. Segundo a OMS, antibióticos comuns curam a peste se dados cedo.1 Em 2017, Madagascar teve um surto de peste pneumônica que chegou à capital: de agosto a novembro, 2.348 casos confirmados, prováveis e suspeitos e 202 mortes (8,6%). Sem tratamento, a forma pneumônica é quase sempre fatal; com antibiótico, a proporção ficou abaixo de 9%, e o surto já estava caindo em novembro.9
- A corrente de contágio é curta. Quem teve contato próximo com um doente de peste pneumônica toma antibiótico por sete dias, mesmo sem sintomas.1 As duzentas pessoas em observação em Irkutsk não significam que a doença se espalha: é o protocolo.
Especialistas ouvidos pela BBC dizem que, mesmo se for peste, o risco de epidemia é baixo. O que mais preocupa é a falta de informação clara sobre o caso.4
6E no Brasil?
No fim do século 19, a peste fez de novo o que tinha feito em Messina: saiu da Ásia, passou por Hong Kong e, nos navios a vapor, foi de porto em porto pelo mundo. Chegou ao Brasil pelo porto de Santos, em outubro de 1899. Quem confirmou a bactéria nos ratos da cidade foi o médico Oswaldo Cruz, então com 27 anos, o que abriu caminho para o instituto que hoje é a Fiocruz.1011
Anos depois, no Rio de Janeiro, o governo passou a comprar ratos. Surgiu uma profissão, o ratoeiro, e houve até tentativa de fraude com rato falso de papel e cera. Segundo a Fiocruz, mais de 1,6 milhão de ratos saíram de circulação entre 1903 e 1907, e as mortes por peste na cidade despencaram.12
A bactéria ficou. Segundo o Ministério da Saúde, há focos naturais no Nordeste (Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, com extensão ao Piauí, Alagoas e Bahia), em Teresópolis (RJ) e em áreas de Minas Gerais. O caso suspeito deve ser notificado em até 24 horas, e o tratamento começa antes do resultado do exame. O último caso humano no Brasil foi em 2005, em Pedra Branca, no Ceará.2

7A Peste Negra voltou?
Não: ela nunca foi embora. Continua nas pulgas e nos roedores do mato, na Sibéria, em Madagascar, no interior do Ceará. O que mudou foi o nosso lado: hoje se sabe o que ela é e por onde passa, e há um antibiótico comum que cura. Falta a resposta sobre Irkutsk: o que matou aquela jovem de 28 anos. Conte nos comentários do vídeo se você sabia que a peste tem foco no Brasil.
Anotação na margem: a peste não sumiu. Voltou para o mato.
8Mito ou fato?
| O que se diz | Veredito |
|---|---|
| A causa da morte em Irkutsk já foi confirmada como peste | Mito |
| A peste bubônica passa facilmente de pessoa para pessoa | Mito |
| Antibióticos comuns curam a peste se dados cedo | Fato |
| A Peste Negra é causada por um vírus | Mito |
| Há focos naturais de peste no Brasil | Fato |
Qual forma da peste passa de uma pessoa para outra?
É a C, por partículas respiratórias.1
Aqui, mistério só continua mistério depois de conferido. Todo sábado tem curiosidade nova no canal.
Inscrever-se no Por Que Será?Fontes
- Organização Mundial da Saúde. Plague, fact sheet.
- Ministério da Saúde. Peste.
- CDC. Plague: maps and statistics.
- BBC News Brasil. Suspeita de peste na Rússia, 06/10/2026.
- UOL/BOL. OMS diz que não pode fazer uma avaliação de riscos sobre a suspeita de peste na Rússia, 07/10/2026.
- Institut Pasteur. Alexandre Yersin, the man who discovered the bacterium responsible for the plague (identificação do bacilo em Hong Kong, junho de 1894).
- Michael Platiensis (Michele da Piazza), relato sobre Messina em 1347, em tradução: Michael Platiensis on the Plague (1347), Universidade de Szeged.
- CBS News. Couple dies of bubonic plague after eating raw marmot meat in Mongolia, maio de 2019.
- OMS. Plague, Madagascar (Disease Outbreak News), 27/11/2017.
- Revista Pesquisa FAPESP. Guerra à peste.
- Nascimento, D. R. do. La llegada de la peste al Estado de São Paulo en 1899, Fiocruz/ARCA, Dynamis; Nascimento e Silva. A chegada da peste ao Brasil, análise de uma controvérsia, 1899, História, Ciências, Saúde – Manguinhos, 2013.
- Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz. The campaign against the bubonic plague.
- AFP, via The Korea Times. Russia warns of 'false' information as second plague case reported, 08/10/2026.


