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História · Mapas antigos

O mapa de 1587: por que ele parece impossível?

O mundo visto de cima do Polo Norte, um continente que ninguém tinha visto e mares cheios de monstros. Fomos atrás das fontes para ver de onde veio cada pedaço.

Por Que Será? Publicado em 7 de outubro de 2026 Dados apurados até 7 de outubro de 2026 8 min de leitura ✓ 16 fontes conferidas
O mapa de 1587: por que ele parece impossível?

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Resposta rápida

Ele não é impossível. Urbano Monte, um nobre de Milão, montou o mapa em 1585–1587 lendo livros e copiando outros mapas. A vista "de cima" é uma projeção geométrica conhecida desde 1507; o continente do sul era uma hipótese antiga que muitos mapas repetiam; e parte dos monstros, segundo o próprio Monte, estava ali para preencher o mar vazio.2

O mapa de 1587 tem sessenta folhas desenhadas à mão. Juntas, elas formam um círculo de quase três metros, e a coleção que guarda o mapa o chama de o maior mapa-múndi antigo que se conhece.1 Na internet, ele virou "o mapa que não deveria existir".

O curioso é que o primeiro a achar o mapa impossível foi o próprio autor. Num soneto escrito na folha 42, Monte diz que duvida que alguém encontre outro mapa como esse "no nosso século".2 Aqui a gente não para no "dizem que": vamos conferir cada parte.

O planisfério de Urbano Monte montado: um círculo com o Polo Norte no centro
As 60 folhas montadas: o Polo Norte fica no centro e o sul vira a borda do círculo.Urbano Monte, 1587 · David Rumsey Map Collection, David Rumsey Map Center, Stanford Libraries

1Quem foi Urbano Monte

Monte nasceu em Milão em 1544, numa família nobre e rica. Nunca precisou de cargo público e tinha uma das bibliotecas mais conhecidas da cidade.4

Em 25 de julho de 1585, quatro adolescentes japoneses chegaram a Milão. Era a primeira embaixada do Japão na Europa: tinham saído de Nagasaki três anos antes, levados por jesuítas, e já tinham sido recebidos pelo rei da Espanha e pelo papa. Monte estava lá e anotou que achou a aparência dos meninos estranha, mas os modos impressionantes, e o jeito de comer fascinante.3

Segundo a historiadora Annalisa D'Ascenzo, citada no catálogo da coleção Rumsey, ele provavelmente começou o mapa naquele mesmo mês.3 Dois anos depois, em 1587, estava pronto.

Autorretrato de Urbano Monte
Autorretrato de Monte colado no mapa.Urbano Monte · domínio público (Wikimedia Commons)
O Japão no mapa de Urbano Monte
O Japão de Monte, cheio de nomes de lugares que ele ouviu ou leu dos jesuítas.Folha 9 · David Rumsey Map Collection

2Como ele viu o mundo de cima

O mapa mostra a Terra vista do alto do Polo Norte, mais de trezentos anos antes do avião. Parece impossível, mas para desenhar assim não precisa voar: precisa de geometria.

Pense num globo. Agora descasque esse globo a partir do polo, como uma laranja, e abra a casca em cima da mesa. Isso se chama projeção polar. Monte escreveu que tirou a ideia de Ptolomeu, um geógrafo grego do século 2, e mapas assim já eram impressos desde 1507. Eram raros, mas existiam.2 Hoje a mesma ideia está num símbolo conhecido: o emblema da ONU usa um mapa centrado no Polo Norte.5

E o que Monte pôs no polo? Terras separadas por canais no meio do mar gelado. Na mesma época, Gerardo Mercator desenhava quatro ilhas em volta de um redemoinho, tiradas de um livro de viagem que hoje está perdido.6 Ninguém tinha ido lá; os dois copiavam o que estava escrito.

O Polo Norte no mapa de 1587, com ilhas separadas por canais
O centro do mapa: o Polo Norte imaginado, com ilhas e canais.Folha 1 · David Rumsey Map Collection

Um mapa feito para girar

Monte planejou colar as sessenta folhas numa tábua de cinco braccia (cerca de 2,97 m), com um pino no Polo Norte, para girar o mapa e ler cada parte de perto.2 As folhas formam cinco anéis, de 4, 8, 12, 18 e 18 folhas, e em cada uma ele anotou qual folha vem em cima e qual vem embaixo.1 Segundo a coleção Rumsey, a tábua giratória nunca chegou a ser feita.1

Anotação na margem: geometria, não voo.

3Uma biblioteca, não um navio

O historiador Chet Van Duzer foi atrás das fontes de Monte frase por frase, e achou quase todas.2 Alguns exemplos:

A conclusão de Van Duzer é direta: o mapa é fruto de pesquisa em biblioteca, não de entrevistas com navegadores.2 Monte também errou: escreveu que o Japão era três vezes maior que a Itália.3 Na verdade, é só cerca de 25% maior.

E a Califórnia?

Um detalhe que circula como "prova de mistério" é a Califórnia aparecer presa ao continente. Mas isso era o normal no século 16: navegadores espanhóis tinham percorrido aquela costa em 1542. O erro famoso, a Califórnia desenhada como ilha, é dos mapas do século seguinte.7

Anotação na margem: biblioteca, não navio.

4O Brasil no mapa de 1587

Na folha 24 está escrito "El Brasil". Logo acima do litoral, flutuando no Atlântico, há um rei num trono com a legenda "Re Philippo": Filipe II, rei da Espanha.2

Por que o rei da Espanha em cima do Brasil? Porque, em 1580, as coroas de Portugal e da Espanha se juntaram na União Ibérica, que durou até 1640.15 Quando o mapa ficou pronto, o Brasil tinha o mesmo rei que a Espanha.

Ajoelhado diante dele está "Atabalipa", nome que os europeus davam a Atahualpa, o imperador inca. Só que Atahualpa tinha morrido em 1533, mais de cinquenta anos antes.16 A cena nunca aconteceu: Monte a copiou do mapa de Gastaldi.2 É propaganda, o mundo do jeito que o império queria se ver.

Filipe II no trono sobre o Atlântico, com Atabalipa ajoelhado
"Re Philippo" no trono e "Atabalipa" ajoelhado, perto da costa do Brasil.Folha 24 · David Rumsey Map Collection

No mesmo anel passa o Trópico de Câncer, e Monte o enfeitou com caranguejos: cancer, em latim, quer dizer caranguejo.3

5Por que os mapas antigos têm monstros

O quarto anel é quase todo oceano, e é ali que o mar se enche de criaturas: um peixe com bico de espada, um velho cabeludo saindo das ondas, um monstro com barbatana de dragão perto de Madagascar, sereias.

De novo, quase tudo foi copiado. O velho do mar e o monstro de Madagascar vêm de Gastaldi (1561); o peixe-espada e uma tartaruga com asas vêm de um mapa da Escandinávia impresso em 1558.2

"Para encher com alguma coisa esse espaço de mar vazio, coloquei umas galeras e navios."Urbano Monte, sobre a folha 12, citado por Van Duzer2

Sobre as sereias, ele quase pede desculpas: ficariam melhores, escreve, se a mão de quem escreveu tivesse feito do desenho a sua profissão. E, numa nova versão do mapa, de 1590, foi acrescentando monstros e navios onde achava o mar vazio demais. Os historiadores chamam isso de horror vacui, o horror ao vazio.2

Monstro com barbatana de dragão no mapa de 1587
O monstro de barbatana perto de Madagascar.Folha 29 · David Rumsey Map Collection
Sereias desenhadas por Urbano Monte
As sereias que o próprio Monte achou mal desenhadas.Folha 29 · David Rumsey Map Collection

Mas nem todo monstro era só enfeite. Na Carta Marina de 1539, de Olaus Magnus, serpentes e baleias atacando navios misturavam relatos de marinheiros, história natural e folclore.8 E a frase "aqui há dragões", que muita gente acha que estava em todo mapa antigo? Só se conhecem dois exemplos, um deles no globo Hunt–Lenox, de cerca de 1508.9

Detalhe da Carta Marina de 1539 com monstros atacando um navio
Monstros atacando um navio na Carta Marina (1539).Olaus Magnus · domínio público (Wikimedia Commons)

Anotação na margem: enchimento… e história de marinheiro.

6Monstros marinhos que existem de verdade

O peixe-espada. O "xífio" de Monte é o espadarte (Xiphias gladius), um peixe real que pode passar de quatro metros.

O xífio desenhado no mapa de 1587
O xífio do mapa.Folha 20 · David Rumsey Map Collection
Foto de um espadarte
Um espadarte de verdade.Derke Snodgrass, NOAA/NMFS · domínio público

A serpente marinha. Um biólogo da NOAA aponta um suspeito: o regaleco, um peixe comprido e prateado que pode passar de seis metros. Muita gente acha que ele deu origem às histórias de serpente marinha. É uma hipótese.10

Regaleco exposto em museu
Regaleco (Regalecus glesne) no Museu de História Natural de Viena.Foto: Sandstein · CC BY 3.0 (Wikimedia Commons)

O kraken. A lula-gigante foi conhecida por séculos quase só por animais mortos; a primeira imagem dela viva no fundo do mar é de 2004.11 Em 2019, uma equipe filmou uma no Golfo do México, com uns três metros, e meia hora depois um raio caiu no navio. No diário da expedição, escreveram que o que antes era um monstro a temer hoje é uma criatura curiosa e magnífica.12

Anotação na margem: existe. Só não do jeito que desenharam.

7O continente que ninguém tinha visto

Na borda do mapa, em volta do Polo Sul, há um anel de terras enormes com gente e bichos. A Antártida só foi avistada em 1820, 233 anos depois.14 Então Monte sabia? Três coisas desmontam a ideia:

  1. Ele não inventou. Muitos mapas do século 16 já desenhavam uma grande terra no sul, porque uma ideia antiga dizia que ela tinha de existir para equilibrar as terras do norte.13 O formato de Monte, um anel de oito ilhas, provavelmente veio de um mapa impresso em Veneza em 1554 (Tramezzino).2
  2. A projeção estica o sul. Quanto mais longe do Polo Norte, mais o desenho se alarga. A parte menos conhecida do mundo virou a maior área do papel, muito espaço vazio para preencher.
  3. A pista do próprio Monte. Em volta do mapa há 36 textos sobre povos e lugares. Nenhum fala dessas terras do sul, e as duas únicas explicações sobre elas foram copiadas de um livro, com erro e tudo.2
Mapa-múndi de Ortelius, 1572, com a Terra Australis no sul
Ortelius, 1572: a mesma "Terra Australis" gigante no sul, quinze anos antes de Monte.Abraham Ortelius · domínio público (Wikimedia Commons)

E se colocamos a Antártida real por cima, nada bate: nem o formato, nem o tamanho.

Anotação na margem: chute herdado de outros mapas.

8Mito ou fato?

O que se dizVeredito
Monte desenhou a Antártida antes de ela ser descobertaMito
Só dava para desenhar o mundo "visto de cima" voandoMito
Parte dos monstros foi posta para encher o mar vazioFato
Alguns monstros correspondem a animais reaisEm parte
Todo mapa antigo dizia "aqui há dragões"Mito
O Brasil aparece com o rei da Espanha em cimaFato

9O mapa que quase não chegou até nós

Monte continuou mexendo no mapa por anos: em 1589 colou um retrato novo por cima do antigo e acrescentou a Muralha da China. Queria imprimir tudo para estudantes, mas a versão impressa nunca foi publicada. Brigou com o filho mais velho, foi parar na justiça por herança e morreu em 1613.24

O mapa passou por leilões em Londres e Nova York e hoje está na coleção David Rumsey, na Universidade Stanford. Em 2017, as sessenta folhas foram montadas no computador; segundo a coleção, foi a primeira vez em 430 anos que ele foi visto como um mapa só.1

Então, é um mapa que não deveria existir? Não. É um mapa que quase não chegou até nós: um homem, uma biblioteca e dois anos de leitura tentando pôr o mundo inteiro numa mesa. E, no soneto em que duvidava que alguém achasse outro mapa igual, ele estava certo.

Teste rápido

De onde Monte tirou a maior parte do que desenhou?

É a B. Van Duzer achou a origem de quase todos os textos e desenhos em livros e mapas impressos da época.2

Aqui, mistério só continua mistério depois de conferido. Todo sábado tem curiosidade nova no canal.

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Fontes

  1. David Rumsey Map Collection. Largest early world map: Monte's 10 ft planisphere of 1587, 26/11/2017.
  2. Chet Van Duzer. Urbano Monte's World Maps: Sources and Development. Imago Temporis XIV, 2020.
  3. David Rumsey Map Center (Parker e Rumsey). Catálogo do Trattato universale de Urbano Monte, 2017.
  4. Treccani, Dizionario Biografico. Urbano Monti.
  5. Nações Unidas. UN emblem and flag.
  6. Wikipedia. Rupes Nigra (Mercator e o polo, carta a John Dee, 1577).
  7. Library of Congress. Free to use and reuse: maps of discovery and exploration, 2020.
  8. The Mariners' Museum. Sea monsters revisited: the Carta Marina and beyond, 2021.
  9. New York Public Library. Hunt–Lenox Globe.
  10. NOAA Fisheries. Giant oarfish (podcast).
  11. Smithsonian Ocean. Giant squid.
  12. NOAA Ocean Exploration. Expedition log, 20/06/2019.
  13. Governo da Austrália (DCCEEW). Great Southern Land.
  14. British Antarctic Territory. UK Antarctic timeline.
  15. Wikipédia. União Ibérica.
  16. Wikipédia. Atahualpa.

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