Em julho de 1518, em Estrasburgo, umas 50 pessoas, e não a cidade inteira, passaram dias dançando sem conseguir parar. Os papéis da prefeitura daquele verão registram os dançarinos, a receita dos médicos e a ida dos doentes a uma capela de São Vito, mas nenhuma morte. O "dançaram até morrer" aparece em crônicas escritas décadas depois. Não há consenso sobre a causa; a explicação mais citada hoje junta fome, medo e a crença na maldição de São Vito.12312
Epidemia de dança de 1518. Numa cidade da Europa, uma mulher sai à rua, começa a dançar e não para. Dias depois, dezenas de pessoas dançam com ela, de dia e de noite. É a chamada praga da dança, e quase toda explicação dela termina do mesmo jeito: centenas de pessoas dançaram até morrer.
A cidade, porém, guardou os papéis daquele verão: cartas, ordens, a receita dos médicos. Vamos abrir essa caixa, documento por documento.
1A cidade e a praga de São Vito
O lugar é Estrasburgo. Hoje ela fica na França, mas em 1518 era uma cidade livre do Sacro Império, à beira do Reno. (E a data é 1518, não 1513, como muita busca sugere.)

Segundo o historiador John Waller, autor de um livro sobre o caso, os anos anteriores foram de fome, pão caro e doenças novas, embora outros historiadores discutam quanto isso pesou. Mas todos ali acreditavam em São Vito, santo que podia mandar uma praga, a dança. "Que a dança de São Vito te pegue" era uma praga comum, dessas de xingar alguém.14
2Documento nº 1: cinquenta pessoas e uma mulher sem nome
Os anais do secretário da cidade, Sebastian Brant, registram que por volta da festa de Santa Margarida, em meados de julho, "uma terrível doença, a dança de São Vito" se espalhou. Umas 50 pessoas dançavam, dia e noite.12
Quem começou? Uma carta da prefeitura daquele mês diz só que começou com uma mulher, e depois outras pessoas se puseram a dançar. Sem nome.2
O nome "Frau Troffea" que aparece em muitos textos vem do médico Paracelso, que só chegou à cidade em 1526. Para o historiador Georges Bischoff, o nome é inventado, algo como "a que faz girar" em grego.5
3Documento nº 2: a receita dos médicos
Em 25 de julho, a prefeitura escreveu ao bispo. Os médicos tinham diagnosticado uma "doença natural", causada pela posição dos astros naquele ano e pelo calor. A receita: nada de vinho; água de cevada, pão, mingau de cevada e de aveia. E música, mas não qualquer uma: sem tambor nem pífano, só instrumentos de corda e órgão pequeno.2

A cidade pôs os doentes em dois salões de corporações de ofício e pagou gente para dançar com eles. Se funcionou, nenhum documento diz.12
Uma crônica escrita quase 70 anos depois conta outra versão, a que aparece em quase todo vídeo: palcos no mercado, com tambores e pífanos. Ela contradiz a receita daquele verão, então o assunto é disputado. A mesma carta de 25 de julho garantia que a doença estava chegando ao fim.26
4Documento nº 3: cinco rostos
Só cinco dançarinos têm "rosto" nos papéis, porque as famílias pediram ajuda em dinheiro à cidade: o filho de um professor, o filho de um criado, a mulher de um diarista, a filha de um mendigo e o filho de um pobre ajudante.1
O menino do professor viu gente dançando, imitou e insistiu tanto que o pai largou a escola para levá-lo. O marido da diarista achou que ela tinha enlouquecido ao vê-la pulando dentro de casa; depois, vendo-a seguir os músicos, pensou: é São Vito.1
Não é uma lista de "loucos". É uma lista de famílias pedindo socorro.
5Documento nº 4: a proibição e a gruta de São Vito
Em 2 de agosto a cidade mudou de ideia e proibiu a dança em público. A ordem foi assinada pelo mesmo Sebastian Brant, que em 1494 tinha escrito A Nau dos Insensatos, o livro mais famoso da época sobre a loucura humana.17
Em 11 de agosto, o registro diz que "a doença reapareceu". Cada família cuidava dos seus doentes, que ficavam proibidos de sair às ruas e de usar joias ou roupas bonitas.1
Desde o fim de julho, a cidade mandava carroças com doentes até uma gruta com capela de São Vito perto de Saverne, a cerca de 40 km. É a parte mais bem documentada, porque a cidade guardou as contas. Lá, padres rezavam missas e os doentes davam a volta no altar.18

Uma crônica posterior (Daniel Specklin, c. 1587) acrescenta que cada doente ganhava sapatos vermelhos com cruzes de óleo santo e que "isso ajudou quase todos". É alegação tardia. Brant diz algo parecido, sem os sapatos: a maioria voltou curada.19 No fim de agosto, a cidade pagou uma vela e missas para o santo, e depois de uns dois meses a dança some dos papéis.1
6Documento nº 5: o que não está na caixa
A lista dos mortos não está nos papéis. A historiadora Élisabeth Clementz, que transcreveu os documentos, aponta que nenhum documento daquele verão nem nenhum autor da época registra morte alguma.110
De onde veio o "dançaram até morrer"? De crônicas escritas décadas depois. A mais famosa é a de Daniel Specklin, por volta de 1587: "muitos dançaram até morrer". Specklin nasceu 18 anos depois dos fatos, e sua crônica queimou no bombardeio de Estrasburgo em 1870, restando uma cópia feita depois.611
E o famoso "15 mortes por dia"? O número vem de John Waller, que cita "uma crônica". Mas uma crônica da época, lida por Clementz, fala em 15 pessoas por dia ficando doentes, ou seja, casos novos, não mortos.16
Veja como a história cresce: nos papéis de 1518, umas 50 pessoas; em Specklin, mais de cem ao mesmo tempo; em crônicas mais tardias, 400; em um romance francês de 2018, duas mil.16
Dava para morrer? Dava. Em 1923, nos Estados Unidos, Homer Morehouse, de 27 anos, caiu morto depois de 87 horas numa maratona de dança. Esforço extremo, calor e desidratação podem destruir músculo e sobrecarregar rins e coração.1314 Mortes em Estrasburgo são plausíveis, mas plausível não é registrado.
7Não foi a primeira cidade
Em 1374, uma onda de dança começou em Aachen (24 de junho) e desceu o Reno por Colônia, Metz, Flandres e Utrecht. Os curados diziam ter dançado dentro de um rio de sangue.1516 No sul da Itália, por séculos, quem dançava assim culpava a picada da tarântula, e o remédio era música: o jesuíta Athanasius Kircher chegou a publicar as melodias, em 1641.17

8O julgamento: cinco suspeitos
- Esporão-do-centeio. Um fungo que cresce na espiga e vai parar no pão; dele saiu, séculos depois, a base química do LSD. Causava o "fogo de Santo Antônio", com alucinações, convulsões e gangrena. Não fecha: envenenamento não explica dançar de forma coordenada por dias, e ninguém fala de gangrena em Estrasburgo. O museu da cidade chamou a hipótese de "inaceitável".1819
- Uma seita. Os dançarinos pediam ajuda a quem passava e foram tratados como doentes, não como hereges.1
- Doenças do cérebro. Doenças como a epilepsia atingem uma pessoa, não dezenas de uma vez. O nome médico "dança de São Vito" foi emprestado dessas epidemias, e não o contrário.20
- Medo. Para John Waller, fome, doença e a crença na maldição de São Vito levaram pessoas a um transe que se passava de uma para outra, só de ver. É a explicação mais citada hoje.2122
- Fé. O historiador Gregor Rohmann vê na dança um sentido religioso para quem estava ali, um jeito de pedir socorro a um Deus que parecia ter abandonado a cidade. Ele rejeita a palavra "histeria" e diz que nenhuma causa única explica todas as fontes.23

Não há consenso. O fungo, quase ninguém defende mais. O medo e a fé aparecem juntos nas explicações mais fortes.
9Isso ainda acontece?
- Tanganica (hoje Tanzânia), 1962: num internato, três meninas começam a rir e não conseguem parar. Segundo os relatos, perto de mil pessoas foram afetadas e 14 escolas fecharam.24
- Tennessee, EUA, 1998: uma professora sente cheiro de gasolina e passa mal. Em poucos dias, 170 idas ao pronto-socorro, sem nada tóxico encontrado. O que mais aumentava a chance de adoecer era ver outra pessoa passando mal.25
- Alemanha, 2019 a 2021: jovens passam a ter tiques iguais aos de um youtuber famoso, o primeiro surto desse tipo espalhado só pelas redes sociais, segundo a revista Brain.26

Ninguém ali estava fingindo. Os sintomas são reais: o corpo reage ao medo e ao que vê nos outros.
Anotação na margem: não é só o corpo que pega o que vê nos outros. A história também.
10Por que a cidade não parava de dançar?
A resposta honesta começa com uma correção: não era a cidade inteira. Eram umas 50 pessoas, talvez mais, num verão de fome, calor e medo. A cidade tentou de tudo: médico, música, proibição, romaria. O "dançaram até morrer" veio depois, crescendo a cada século. Se você quiser, conte nos comentários do vídeo o que pesou mais em 1518: a fome, o medo ou a fé.
11Mito ou fato?
| O que se diz | Veredito |
|---|---|
| Os documentos de 1518 registram mortes de dançarinos | Mito |
| A primeira dançarina se chamava Frau Troffea | Mito |
| A prefeitura mandou os doentes a uma gruta de São Vito | Fato |
| Os médicos recomendaram música, mas sem tambor | Fato |
| A epidemia foi em 1513 | Mito |
| O fungo do centeio é hoje a explicação preferida | Mito |
Para onde os dançarinos foram levados para tentar a cura?
É a B. As contas da viagem das carroças foram guardadas pela cidade.18
Aqui, mistério só continua mistério depois de conferido. Todo sábado tem curiosidade nova no canal.
Inscrever-se no Por Que Será?Fontes
- Rue89 Strasbourg. Strasbourg, épidémie de danse de 1518 (com a transcrição de Élisabeth Clementz).
- DHI Alsace (BNU). Danse de Saint-Guy.
- Marillier e Godard. Epidemie de danse mortelle à Strasbourg, 2023.
- Waller. Resumo no BPS.
- Dossiê do Museu de Estrasburgo (Bischoff). Fièvre de la danse (PDF).
- The Public Domain Review. The dancing plague of 1518; Medievalists.net. The forgotten plague.
- Alsace Histoire. Brant, Sébastien.
- France 3 Grand Est. Grotte de Saint-Guy, Saverne.
- Wikipédia alemã. Straßburger Tanzwut.
- Clementz. Revue d'Alsace, 2016.
- Wikipedia. Daniel Specklin.
- Waller. PubMed 18602695, 2008.
- Wikipedia. Dance marathon; HistoryLink. Marathon dancing.
- Rabdomiólise (PMC).
- Wikipedia. Dancing mania.
- JSTOR Daily. When dancing plagues struck medieval Europe.
- Wikipedia. Tarantism.
- Ergotismo e a epidemia (PMC).
- Dossiê do ensino do Museu de Estrasburgo. 1518 (PDF).
- Tremor and Other Hyperkinetic Movements. Artigo sobre a história da coreia.
- Waller. PubMed 18602695.
- British Psychological Society. Dancing plagues and mass hysteria.
- H-Soz-Kult. Resenha de Tanzwut de Gregor Rohmann.
- Wikipedia. Tanganyika laughter epidemic.
- Surto psicogênico no Tennessee, 1998 (CDC e New England Journal of Medicine). PubMed 10631279.
- PubMed 34424292 (Brain, tiques espalhados por redes sociais).


