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Saúde · Notícia explicada

Por que Carlos Alberto de Nóbrega precisou de marcapasso? O vírus Coxsackie

O humorista, de 90 anos, foi internado com um vírus que a maioria das pessoas pega sem perceber. Separamos o que a família divulgou do que a medicina descreve sobre esse vírus, o coração e o marcapasso.

Por Que Será? Publicado em 22 de outubro de 2026 Dados apurados até 22 de outubro de 2026 7 min de leitura ✓ 11 fontes conferidas
Por que Carlos Alberto de Nóbrega precisou de marcapasso? O vírus Coxsackie

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Resposta rápida

Segundo a família, Carlos Alberto de Nóbrega, 90 anos, teve uma infecção pelo vírus Coxsackie que agravou uma insuficiência cardíaca que ele já tinha. Durante a internação, o coração bateu devagar demais (bradicardia) e teve arritmia, e a equipe implantou um marcapasso em 20 de outubro de 2026.12 O Coxsackie é um enterovírus comum, da mesma família da pólio; alguns tipos dele conseguem entrar nas células do músculo do coração e inflamar o órgão.46 O marcapasso não substitui o coração: ele dispara um pulso elétrico só quando o batimento atrasa.7

Um vírus que dá bolhinha na mão de criança. Um coração de noventa anos. E um aparelho que pode pesar menos de trinta gramas. Foi essa a sequência que levou Carlos Alberto de Nóbrega ao Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, em outubro de 2026.

Este texto separa duas coisas: o que a família e a assessoria divulgaram sobre ele, sempre atribuído, e o que a medicina descreve sobre o vírus, a miocardite, a bradicardia e o marcapasso, em geral. Nenhuma fonte médica aqui fala do caso dele em particular. O laudo é dos médicos dele.

Fachada do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo
O Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, onde ele deu entrada em 16 de outubro.Sturm/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

1O que a família contou

Na sexta-feira, 16 de outubro de 2026, o apresentador de 90 anos foi internado para uma bateria de exames. A esposa dele, Renata de Nóbrega, que é médica, escreveu nas redes sociais que ele estava "investigando a principal causa de alguns sintomas". A equipe dos médicos Roberto Kalil e David Uip acompanha o caso.1

Segundo a assessoria, o cansaço vinha de meses: fadiga que não passava e indisposição. No começo, os sintomas foram atribuídos à idade e a condições que ele já tinha.3

Na segunda, 19 de outubro, saiu o nome: os exames apontaram o vírus Coxsackie, "tipo dois", segundo a família. Junto veio outra informação: a infecção teria agravado uma insuficiência cardíaca preexistente. Durante a internação, ainda segundo a família, o coração bateu devagar demais, o que os médicos chamam de bradicardia, e ele teve arritmia. A equipe decidiu colocar um marcapasso.23

A cirurgia chegou a ser adiada um dia. Na terça à tarde, 20 de outubro, o aparelho foi implantado. Na quarta, a assessoria informou que ele tomou café da manhã, caminhou pelo hospital e "passa bem". A previsão de alta divulgada pelo SBT era sexta, 23 de outubro, se a evolução permitisse.2

Meses de cansaço e um coração lento.

2Que vírus é esse

Coxsackie é o nome de uma cidade pequena no estado de Nova York, à beira do rio Hudson. Foi lá que Gilbert Dalldorf obteve as primeiras amostras, em 1948, trabalhando no departamento de saúde do estado.9

Placa de boas-vindas da cidade de Coxsackie, Nova York
Coxsackie, Nova York: a cidade que deu nome ao vírus.Tyler A. McNeil/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
Gilbert Dalldorf discursando
Gilbert Dalldorf, que isolou o vírus em 1948.Willy Pragher/Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

O vírus faz parte de um grupo chamado enterovírus, a mesma família do vírus da pólio. O grupo tem mais de cem tipos.5 Só nos Estados Unidos, o CDC calcula de 10 a 15 milhões de infecções por ano pelos enterovírus que não são a pólio, a maioria sem sintoma ou com cara de resfriado.4

Quem conhece esse vírus é quem tem filho pequeno. Alguns tipos causam a doença mão-pé-boca: bolhinhas na palma da mão, na sola do pé e na boca. O vírus passa por saliva, fezes e mãos que tocaram superfícies contaminadas, e a pessoa pode continuar eliminando o vírus por semanas depois de melhorar. Não existe vacina nem remédio que mate o vírus; o tratamento é de suporte, e o corpo resolve quase sempre.4

Micrografia eletrônica do coxsackievírus B4
O coxsackievírus B4 ao microscópio eletrônico.Wikimedia Commons (domínio público)
Mãos de um adulto com erupção da doença mão-pé-boca
A doença mão-pé-boca, causada por alguns tipos de coxsackie, também atinge adultos.James Heilman, MD/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Os coxsackie se dividem em dois grupos, A e B. Uns poucos tipos, cinco do grupo B e dois do grupo A, têm uma preferência estranha: gostam de músculo. Em casos raros, inflamam o músculo do coração, a chamada miopericardite.5 A família não disse se o "tipo dois" dele é do grupo A ou do grupo B.

Vírus comum, gosto raro.

3Como um vírus de garganta chega ao coração

Cada célula do músculo do coração tem, na superfície, uma espécie de fechadura. Os cientistas chamam de CAR, o receptor de coxsackie e adenovírus. O coxsackie do grupo B tem a chave: ele encaixa, entra e começa a se multiplicar lá dentro. No caminho, corta uma proteína que funciona como o esqueleto da célula, e a célula se desmancha.6

Células do músculo cardíaco com a actina marcada em verde
Células do músculo do coração ao microscópio. É nelas que o vírus entra pela "fechadura" CAR.Ps1415/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Essa é a primeira onda. A segunda é pior: o corpo percebe a invasão e manda células de defesa para o coração. Só que as substâncias que elas soltam para matar o vírus também machucam o músculo. O coração fica inchado, espesso e fraco. Isso tem nome: miocardite.6

Aí entra a parte elétrica. O coração tem um relógio natural, um grupo de células chamado nó sinusal, que dispara um impulso a cada batida. Esse impulso corre por uma "fiação" até o resto do músculo. Quando a inflamação atinge essa fiação, o sinal atrasa ou trava. A diretriz brasileira de marcapasso diz que as miocardites agudas virais, em menor proporção, podem causar bloqueios intermitentes ou definitivos.8

Um dado que surpreende: quem tem miocardite por esses vírus está, em sua maioria, entre 20 e 39 anos.5 E um aviso que vale repetir: a família não falou em miocardite. O que está acima é o que a medicina descreve, em geral.

Uma chave e um relógio que atrasa.

4Por que a saída foi um marcapasso

Coração lento demais tem consequência. Chega menos sangue ao cérebro e ao resto do corpo. A pessoa sente tontura, cansaço que não melhora com descanso, falta de ar, e pode desmaiar.7

O marcapasso é um aparelho pequeno, com bateria. Os modelos mais novos podem pesar menos de 30 gramas. Ele fica de vigia: quando percebe que o coração demorou demais para bater, manda um pulso elétrico, e o coração bate. Se o coração está batendo bem, ele fica quieto. Ele não substitui o coração; ele cobre o atraso.7

Um marcapasso de 1993 com o eletrodo, em exposição num museu
Um marcapasso de 1993, com o eletrodo: gerador, bateria e um fio até o coração.The wub/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
Raio-X de tórax mostrando um marcapasso de dupla câmara
Raio-X de tórax com um marcapasso: o gerador fica abaixo da clavícula e os fios seguem por uma veia até o coração.Torres-Ayala, Santacana-Laffitte e Maldonado/Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

O implante é mais simples do que parece. Dura cerca de uma hora, com a pessoa sedada, mas acordada. O médico faz um corte pequeno abaixo da clavícula, encaixa o gerador embaixo da pele e passa os fios por uma veia até dentro do coração. A maioria volta para casa em até um dia. A bateria dura de 6 a 15 anos.7

A indicação mais comum de marcapasso no mundo é o relógio do coração falhando, a doença do nó sinusal: cerca de metade dos implantes. Em geral, por desgaste da idade, mas a diretriz brasileira também lista inflamação e infecção entre as causas. E no Brasil, a maior causa infecciosa de bloqueio no coração não é vírus: é a doença de Chagas.8

Metade dos marcapassos é por relógio falhando.

5Por que aos 90 anos é diferente

A família deu a resposta no dia 19: ele já tinha insuficiência cardíaca.2

Insuficiência cardíaca não é parada. É um coração que não consegue bombear todo o sangue que o corpo pede. Costuma vir devagar, com anos de pressão alta ou de arritmia. Depois dos 65, o músculo enfraquece e endurece. Não tem cura, tem controle, e pode piorar de repente.10

Em dez anos, segundo o DATASUS, o Brasil somou mais de 2,2 milhões de internações por insuficiência cardíaca, com mais casos entre quem tem mais de 60 anos.11

O que foi divulgado sobre ele é só isso: o vírus, a insuficiência que já existia, o coração lento. Quanto cada coisa pesou no caso dele, só os médicos dele sabem.

O sinal que aparece semanas antes

Em até 80% dos casos de miocardite aguda, nas semanas anteriores a pessoa teve febre, mal-estar no estômago ou um quadro parecido com gripe.6 Uma virose que passou. O coração, às vezes, não passou junto.

Os sinais de alerta que a medicina lista: cansaço que não melhora com descanso, falta de ar para fazer o que antes era fácil, batimento acelerado ou lento sem motivo, tontura e desmaio, principalmente depois de uma virose.710 Isso não é diagnóstico. É motivo para procurar um médico.

O que se dizVeredito
O vírus Coxsackie é raro.Mito
Todo mundo que pega o vírus tem problema no coração.Mito
Alguns tipos de coxsackie podem inflamar o músculo do coração.Fato
O marcapasso faz o coração bater no lugar dele.Mito
Metade dos marcapassos do mundo é por doença do nó sinusal.Fato
Teste rápido

Qual é a indicação mais comum de marcapasso no mundo?

A doença do nó sinusal, o "relógio" do coração falhando, responde por cerca de metade dos implantes de marcapasso definitivo, segundo a diretriz brasileira de 2023.

Aqui, mistério só continua mistério depois de conferido. Todo sábado tem curiosidade nova no canal.

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Fontes

  1. SBT News. Apresentador Carlos Alberto de Nóbrega é internado em SP, 17/10/2026.
  2. O Tempo. Esposa atualiza estado de saúde de Carlos Alberto de Nóbrega após cirurgia cardíaca, 21/10/2026.
  3. Bahia.ba. Carlos Alberto de Nóbrega colocará marcapasso após diagnóstico, 19/10/2026.
  4. CDC. About Non-Polio Enteroviruses, acessado em 22/10/2026.
  5. Manual MSD. Overview of Enterovirus Infections, acessado em 22/10/2026.
  6. Tschöpe C. et al. Myocarditis and inflammatory cardiomyopathy: current evidence and future directions, Nature Reviews Cardiology, 2021.
  7. MedlinePlus (NIH). Heart pacemaker e Myocarditis, acessados em 22/10/2026.
  8. Teixeira R. A. et al. Diretriz Brasileira de Dispositivos Cardíacos Eletrônicos Implantáveis 2023, Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2023.
  9. Wikipedia. Coxsackievirus, acessado em 22/10/2026.
  10. MedlinePlus (NIH). Heart Failure, acessado em 22/10/2026.
  11. Garcia L. R. R. et al. Qual o impacto da evolução do tratamento de pacientes portadores de insuficiência cardíaca na sua mortalidade?, Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2025.

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