Por Que Será?
Ciência · Medicina

Anestesia: por que a ciência ainda não sabe como funciona?

Mais de 175 anos depois da primeira demonstração pública, ninguém sabe explicar por completo como um gás ou uma injeção desliga a consciência.

Por Que Será? Publicado em 28 de setembro de 2026 Dados apurados até 28 de setembro de 2026 9 min de leitura ✓ 34 fontes conferidas
Anestesia: por que a ciência ainda não sabe como funciona?

Prefere assistir? O vídeo completo está aqui (9 min)

Resposta rápida

A medicina sabe usar a anestesia com muita precisão, mas ainda não sabe explicar por completo como ela desliga a consciência. Os pesquisadores já descobriram onde as moléculas dos anestésicos se encaixam nas células, e já viram que várias drogas diferentes deixam a atividade do córtex instável. O que falta é ligar essas peças a uma explicação única de por que a pessoa deixa de estar consciente.123

Em 27 de setembro de 2026, a BBC publicou uma reportagem sobre a anestesia geral que chamava o assunto de "um dos grandes mistérios da ciência". Segundo a matéria, mais de 350 milhões de pessoas recebem anestesia geral por ano.1 Um estudo de referência da Organização Mundial da Saúde estimou 312,9 milhões de operações de todos os tipos no mundo em 2012, o que mostra a ordem de grandeza.2

Como a medicina convive com isso? Para entender, ajuda voltar a um tempo em que não havia nada disso.

1Como era operar acordado

Despertai! resume assim a época anterior a 1840: o paciente que ia para a sala de cirurgia não ficava apreensivo, ficava apavorado. Os cirurgiões eram avaliados pela rapidez. Usava-se álcool, ópio, mandrágora com vinho, e depois de tudo isso alguém forte para segurar o doente.4

Gravura de 1597 com cirurgiões operando um paciente seguro por assistentes
Gravura de 1597: antes da anestesia, o paciente ficava acordado e era segurado por assistentes.Wellcome Collection, CC BY 4.0 (Wikimedia Commons)

Um caso que ficou registrado é o da escritora inglesa Fanny Burney. Em 30 de setembro de 1811, em Paris, ela foi operada de um câncer de mama, acordada, pelo cirurgião de Napoleão, Dominique-Jean Larrey. A operação e o curativo levaram cerca de 20 minutos, e ela só recebeu um vinho fortificado. Numa carta à irmã, escreveu que começou a gritar e só parou no fim.5

Em Londres, o escocês Robert Liston ficou famoso pela rapidez: segundo um biógrafo, amputava uma perna em dois minutos e meio. A história de que, numa só operação, ele teria matado o paciente, o assistente e um espectador é, segundo a Wikipédia, possivelmente apócrifa, sem fontes primárias. Fica como lenda, não como fato.6

Caricatura de pessoas experimentando gás do riso numa festa
Antes de virar remédio, o gás do riso era diversão de festa.Thomas Rowlandson, c. 1820 · CC BY 4.0 (Wikimedia Commons)

2O gás do riso

A solução já estava na mão de alguém. Em 1799, o jovem químico Humphry Davy testou o óxido nitroso em si mesmo e o batizou de "gás do riso". Em um livro de 1800, escreveu que o gás parecia capaz de destruir a dor física e talvez pudesse ser usado com vantagem em operações cirúrgicas. Ninguém seguiu a ideia por mais de 40 anos.7

O gás e o éter viraram diversão de festa e de show. Em 30 de março de 1842, em Jefferson, na Geórgia, o médico Crawford Long viu que os amigos se machucavam nessas festas e não sentiam dor. Usou éter num pano para tirar um tumor do pescoço de um paciente. Funcionou, mas ele só publicou em 1849.48

Em dezembro de 1844, em Hartford, o dentista Horace Wells respirou o óxido nitroso depois de um show e pediu a um colega para arrancar um dente dele, sem dor. Em janeiro de 1845, tentou mostrar o método diante de médicos de Harvard. O gás foi mal administrado, o paciente gritou, e a plateia respondeu com a palavra "humbug", embuste.7

316 de outubro de 1846

Em Boston, no Hospital Geral de Massachusetts, o dentista William Morton levou ao anfiteatro cirúrgico um globo de vidro com uma esponja embebida de um líquido que chamou de "Letheon", em referência ao rio do esquecimento da mitologia grega. Era éter. O cirurgião John Collins Warren operou o paciente, Gilbert Abbott, tipógrafo, que tinha uma massa de vasos na mandíbula.9

Pintura da primeira operação com éter, no anfiteatro do hospital de Boston
Reconstituição pintada décadas depois: Morton (à esquerda) e Warren no anfiteatro do hospital.Robert C. Hinckley, 1882–1893 · domínio público (Wikimedia Commons)

Conta a tradição que, no fim, Warren disse: "Senhores, isto não é embuste". Um estudo de 2016 na revista Anesthesiology não encontrou a frase em nenhum relato da época. Ela aparece impressa pela primeira vez em 1859, e as testemunhas que a citam só falaram disso em 1896. Por isso, no vídeo e aqui, ela é "atribuída" a Warren.10

Há outra surpresa. Em 2022, um estudo foi ao prontuário original. A operação de Abbott foi uma tentativa de ligar vasos, não a retirada de um tumor. No fim, ele se mexeu e gritou. Depois disse que não sentiu dor, mas que sabia que estava sendo operado. O autor concluiu que a demonstração mais famosa da anestesia foi feita sob anestesia geral incompleta.11

Mesmo assim, o efeito foi imenso. Em 21 de novembro de 1846, o médico e escritor Oliver Wendell Holmes sugeriu o nome anaesthesia, "insensibilidade", numa carta a Morton.12 Em 21 de dezembro, Liston fez a primeira operação pública com éter na Europa.6 E em 20 de maio de 1847, Roberto Jorge Haddock Lobo fez a primeira anestesia com éter do Brasil, no Rio de Janeiro, num estudante, com intenção apenas experimental.13

4Clorofórmio e a rainha

Em 4 de novembro de 1847, em Edimburgo, o obstetra James Young Simpson e dois amigos, George Keith e James Matthews Duncan, inalaram clorofórmio na sala de jantar da casa dele. Os três apagaram.14

Simpson passou a usar o clorofórmio nos partos. Quando houve objeções religiosas, ele citou Gênesis 2:21 em sua defesa: "Então, Jeová Deus fez o homem cair num sono profundo e, enquanto ele dormia, tirou-lhe uma das costelas e depois fechou a carne naquele lugar."1415 Muita gente diz que a Igreja proibiu a anestesia no parto. O historiador A. D. Farr chamou essa oposição religiosa organizada de mito de historiografia; a resistência foi principalmente médica e durou menos de 15 anos.16

Retrato pintado da rainha Vitória, jovem
A rainha Vitória, em retrato de 1843, dez anos antes de receber clorofórmio no parto.Franz Xaver Winterhalter, 1843 · domínio público (Wikimedia Commons)

Em 7 de abril de 1853, no nascimento do príncipe Leopoldo, o médico John Snow deu clorofórmio à rainha Vitória, num lenço dobrado, com cerca de 15 gotas a cada contração. No diário dela, a anotação de 22 de abril fala daquele "bendito clorofórmio", com efeito "calmante, tranquilizador e delicioso".1718

Já Morton passou anos pedindo ao Congresso americano uma recompensa que nunca veio, por causa das disputas de crédito com Wells, Long e Charles Jackson. Até hoje, não há consenso sobre quem merece o título de descobridor.419

5Azeite, vaga-lume e um gás nobre

A primeira grande pista veio por volta de 1900. Hans Meyer (1899) e Charles Overton (1901), cada um por conta própria, perceberam que quanto mais uma substância se dissolve em gordura (no teste, em azeite de oliva), mais potente ela é como anestésico. A ideia era que o remédio "amolecia" a gordura das membranas dos neurônios.20

A regra começou a falhar. Duas formas "espelhadas" da mesma molécula dissolvem igual na gordura, mas uma, o R-etomidato, é cerca de dez vezes mais potente que a outra.20 Em 1984, Nicholas Franks e William Lieb mostraram que a luciferase do vaga-lume, a proteína que faz o inseto brilhar, é bloqueada pelos anestésicos nas mesmas concentrações que anestesiam animais, sem gordura nenhuma. Os alvos eram proteínas.21

Só que cada droga tem alvos diferentes. Em camundongos, uma mutação de um único ponto no receptor GABA-A deixou os animais quase imunes ao propofol e ao etomidato, mas pouco mudou o efeito dos gases.22 E até o xenônio, um gás nobre que quase não reage com nada, anestesia pessoas, em grande parte inibindo o receptor NMDA.23

Também há plantas. Num estudo publicado nos Annals of Botany, anestésicos como o éter fizeram a dormideira e a dioneia perder a resposta ao toque. A dioneia voltou a fechar a armadilha uns 15 minutos depois de o éter ser retirado. Plantas não têm cérebro nem consciência, mas deixam de reagir.24

Anotação na margem: sabemos onde a molécula encosta, não como isso apaga uma pessoa.

6O que a ciência descobriu agora

Algumas das pistas mais recentes olham o sistema inteiro, não só a peça.

Existe ainda uma hipótese minoritária que liga a consciência a processos quânticos em microtúbulos dentro dos neurônios. Ela é disputada: um físico, Max Tegmark, calculou que o estado quântico no cérebro se desfaria rápido demais para ter papel no pensamento.29

7A consciência volta

Os anestesistas costumam dizer que você vai "dormir", mas um artigo da New England Journal of Medicine define a anestesia geral como um coma reversível causado por drogas, e diz que eles falam em "sono" para não assustar o paciente.30

Em estudos com o antebraço isolado do relaxante muscular, os pesquisadores pedem a pacientes anestesiados que apertem a mão. Uma meta-análise de 2018 contou que 393 de 1.131 pacientes (34,8%) responderam em algum momento, e a maioria não se lembra depois.31

Acordar de verdade no meio da cirurgia é raro, e os números dependem de como se pergunta: de 1 a 2 casos por 1.000 numa pesquisa americana com entrevista ativa, até cerca de 1 em 19.600 em relatos espontâneos no Reino Unido e na Irlanda.3233 E a anestesia hoje é muito mais segura: as mortes causadas só por ela caíram de cerca de 357 por milhão antes de 1970 para 34 por milhão entre 1990 e 2000.34

Talvez o maior mistério nem seja a anestesia, e sim você: o que é estar consciente, e para onde você vai quando apaga? Se quiser, conte nos comentários do vídeo se já tomou anestesia geral e se lembra do último segundo antes de apagar.

8Mito ou fato?

O que se dizVeredito
A Igreja proibiu a anestesia no partoMito
A frase "isto não é embuste" está registrada em relatos de 1846Mito
O paciente da demonstração de 1846 sentiu que estava sendo operado, sem dorEm parte
Plantas podem ser anestesiadas e deixam de reagir ao toqueFato
Anestesia geral é um sono comumMito
Teste rápido

Quem foi a rainha que recebeu clorofórmio em 1853 e popularizou a anestesia no parto?

É a B. O clorofórmio foi dado por John Snow no nascimento do príncipe Leopoldo.17

Aqui, mistério só continua mistério depois de conferido. Todo sábado tem curiosidade nova no canal.

Inscrever-se no Por Que Será?

Fontes

  1. BBC News Brasil, via O Povo. Um dos grandes mistérios da ciência: o que a anestesia geral revela sobre o nosso cérebro, 27/09/2026.
  2. Weiser et al. Bulletin of the WHO, 2016. PubMed 26966331.
  3. Franks. Nature Reviews Neuroscience, 2008. PubMed 18425091.
  4. Despertai!, 22/11/2000, "Da agonia à anestesia". wol.jw.org.
  5. J. C. A. Morrant. BC Medical Journal, 2013. You must expect to suffer: Mme d'Arblay and surgery before the advent of anesthesia.
  6. Wikipedia. Robert Liston.
  7. Wikipedia. Humphry Davy e Horace Wells.
  8. Wikipedia. Crawford Long; Reis Júnior. Revista Brasileira de Anestesiologia, 2006.
  9. MGH Library. Ether & Ether Dome History.
  10. Haridas. Anesthesiology, 2016. PubMed 26566280.
  11. Firth. Ether Day Revisited, Annals of Surgery Open, 2022.
  12. Harvard Countway Library. Holmes Coins the Term Anaesthesia.
  13. Reis Júnior. Revista Brasileira de Anestesiologia, 2006.
  14. Curious Edinburgh. House of James Young Simpson; Wikipedia. James Young Simpson.
  15. Tradução do Novo Mundo (edição revisada), Gênesis 2:21. wol.jw.org.
  16. Farr. Annals of Science, 1983. Religious opposition to obstetric anaesthesia: a myth?
  17. Old Operating Theatre Museum. John Snow, the first English anaesthetist, Part 5.
  18. Christian Science Monitor. Chloroform and childbirth, 2012.
  19. Wikipedia. William T. G. Morton.
  20. Wikipedia. Theories of general anaesthetic action.
  21. Franks e Lieb. Anesthesiology, reimpressão de 2004. PubMed 15220795.
  22. Jurd et al. FASEB Journal, 2003. PubMed 12475885.
  23. Franks et al. Nature, 1998. How does xenon produce anaesthesia?
  24. Yokawa et al. Annals of Botany 122(5).
  25. Redinbaugh et al. Neuron, 2020. PubMed 32053769.
  26. Casali et al. Science Translational Medicine, 2013. PubMed 23946194.
  27. Luppi et al. Nature Human Behaviour, 2025. PubMed 40128306.
  28. Eisen et al. Cell Reports, 2026. PubMed 41850281; EurekAlert, 17/03/2026.
  29. Tegmark. 2000. PubMed 11088215.
  30. Brown, Lydic e Schiff. New England Journal of Medicine, 2010. PubMed 21190458.
  31. Linassi et al. British Journal of Anaesthesia, 2018. PubMed 29935574.
  32. Sebel et al. Anesthesia & Analgesia, 2004. PubMed 15333419.
  33. Pandit et al. British Journal of Anaesthesia, 2014 (NAP5). PubMed 25204697.
  34. Bainbridge et al. The Lancet, 2012. PubMed 22998717.

Leia também

Saúde · História

Por que a Peste Negra ainda existe? O que se sabe do caso na Rússia

A suspeita de peste na Sibéria mexeu com o mundo. A bactéria da Peste Negra nunca foi embora, mas hoje não vira mais pandemia. Explicamos por quê, e o que se sabe do caso de Irkutsk.

História · Mapas antigos

O mapa de 1587: por que ele parece impossível?

O mundo visto de cima do Polo Norte, um continente que ninguém tinha visto e mares cheios de monstros. Fomos atrás das fontes para ver de onde veio cada pedaço.

Atualidades · Aviação

Por que o helicóptero do Rick caiu? O que a FAB já sabe

A causa não foi divulgada. Respondemos às cinco perguntas que mais se fazem sobre a queda do helicóptero do cantor Rick, com o que a FAB e a investigação já mostraram.