Quase ninguém tem lembranças de antes dos 3 anos: num banco com mais de 11 mil lembranças de infância, só 1,1% eram dessa fase.2 Isso não acontece porque o bebê não grava nada. Um estudo de Yale de 2025 mostrou o hipocampo de bebês já registrando o que viam.5 As lembranças somem durante a própria infância, por volta dos 7 anos.4 As pistas mais fortes são o cérebro reorganizando suas ligações, a linguagem, o surgimento do "eu" e o jeito como a família conversa sobre o passado.69101112 Em camundongos, memórias de filhote "esquecidas" voltaram quando os cientistas acenderam uma luz nas células certas.78 Em gente, ninguém sabe ainda.
Pense na sua primeira lembrança, a mais antiga que você tem. Pode ser uma cozinha, um quintal ou um bolo de aniversário. Agora tente lembrar de alguma coisa de antes dela. Para quase todo mundo, não vem nada. Esse vazio tem nome: amnésia infantil. Neste texto a gente separa o que as pesquisas já mostraram do que ainda é pista, e conta por que a sua primeira lembrança pode nem ser sua.
1Ninguém lembra
O termo "amnésia infantil" ficou conhecido com Sigmund Freud, no começo do século vinte. O que intrigava Freud não era a falta de lembranças em si. Ele escreveu que a maioria das pessoas não guarda quase nada dos primeiros seis ou oito anos, e achava isso estranho porque nessa idade a criança sente dor, prazer, amor e ciúme, e mostra que entende muita coisa.1 Ela vive tudo com intensidade e, adulta, não guarda quase nada.

Décadas depois, os pesquisadores foram medir. O psicólogo americano David Rubin reuniu mais de onze mil lembranças de infância contadas por adultos, todas dos 0 aos 10 anos. Só 1,1% eram de antes dos 3 anos.2
Em 2018, uma pesquisa inglesa com 6.313 pessoas chegou a uma média de cerca de 3 anos para a primeira lembrança. O dado curioso veio dos extremos: 2.479 pessoas, cerca de 40%, disseram lembrar de algo de quando tinham 2 anos ou menos, e 887, ou 14,1%, de quando tinham 1 ano ou menos.3 Os próprios autores concluíram que essas lembranças tão precoces são improváveis e provavelmente fictícias. Uma correção publicada em 2020 ajustou os números, e são os corrigidos que aparecem aqui.3
Essas pessoas estão mentindo? Não. Elas acreditam de verdade no que lembram. É exatamente isso que deixa o assunto interessante.
Quase ninguém lembra de antes dos três.
2A lembrança que não é sua
Jean Piaget, suíço, é um dos psicólogos mais famosos do século vinte. Passou a vida estudando como a criança pensa. E tinha uma lembrança muito nítida de bebê, segundo ele mesmo contou: estava no carrinho, passeando com a babá, quando um homem tentou levá-lo embora. A babá lutou, saiu arranhada no rosto, um policial apareceu e o homem fugiu. Piaget lembrava do lugar e até da roupa do policial.13
Anos depois, a família recebeu uma carta da antiga babá. Ela confessou que tinha inventado a história inteira, os arranhões também. Piaget nunca viveu aquilo. Ouviu a história tantas vezes quando era pequeno que a cabeça montou a cena, com imagem e tudo. O caso chegou até nós pelo relato do próprio Piaget, recontado em várias fontes secundárias.13

O experimento do shopping
Nos anos noventa, a psicóloga americana Elizabeth Loftus testou isso de forma controlada. Com a ajuda das famílias, os pesquisadores contaram a adultos quatro histórias da infância deles. Três eram verdadeiras. A quarta era inventada: a pessoa teria se perdido num shopping quando criança. Cerca de uma em cada quatro passou a lembrar do episódio falso. Uma repetição do experimento publicada em 2023 chegou a 35%.14

Agora pense no álbum da sua família: você no bolo de um ano, no colo da avó, a história que alguém conta todo fim de ano. Casos como o de Piaget e o do shopping mostram que uma foto ou uma história repetida pode virar lembrança. Para os pesquisadores da pesquisa inglesa, essa é a explicação mais provável para muitas "primeiras lembranças" de antes dos 2 anos: a cabeça pega o material e guarda como se fosse vivido.3


A cabeça monta, e a gente acredita.
3O bebê grava?
Se a gente não lembra, é porque o bebê não grava nada? Por muito tempo essa foi uma das explicações. O hipocampo, a parte do cérebro ligada à memória do que a gente vive, ainda não estaria pronto nos primeiros anos.

Em 2025, uma equipe da Universidade Yale, nos Estados Unidos, publicou na revista Science um teste muito difícil de fazer: bebês acordados dentro de um aparelho de ressonância magnética. Bebê mexe, chora, dorme. No fim, foram 26 bebês, de 4 meses a 2 anos.5
Na tela, eles viam fotos de rostos, objetos e lugares. Um tempo depois, uma foto antiga voltava ao lado de uma nova. Os pesquisadores usaram um comportamento bem conhecido: quando um bebê já viu uma coisa, tende a olhar mais tempo para ela. O resultado foi que, quanto mais o hipocampo trabalhava quando o bebê via uma foto pela primeira vez, mais tempo ele olhava para ela quando ela reaparecia.5
Isso indica que o hipocampo já estava registrando. O efeito foi mais forte nos bebês com mais de 12 meses e apareceu na parte de trás do hipocampo, a mesma região que, no adulto, participa da memória de episódios vividos.5 Não é um corte absoluto em 1 ano: o sinal aparece antes, só que mais fraco.

O pesquisador sênior da equipe, Nick Turk-Browne, disse que o resultado é compatível com o que os estudos em animais vinham sugerindo: que a amnésia infantil talvez seja um problema de recuperar a lembrança, e não de guardá-la.5
O bebê grava, pelo menos um pouco.
4A gente esquece ainda criança
Se o bebê grava, quando a lembrança some? A psicóloga Patricia Bauer, da Universidade Emory, foi atrás disso. Com a colega Marina Larkina, ela gravou conversas com 83 crianças de 3 anos sobre coisas que tinham acontecido com elas, como uma ida ao zoológico ou um aniversário. Depois, voltou a conversar com elas mais velhas, cada grupo numa idade, dos 5 aos 9 anos.4
As crianças de 5, 6 e 7 anos ainda lembravam de 60% ou mais do que tinham contado aos 3. As de 8 e 9 lembravam de menos de 40%.4 Ou seja, a criança de 5 anos ainda tem lembranças de quando tinha 3. Elas vão sumindo por volta dos 7 anos. A amnésia infantil não acontece quando a gente vira adulto. Acontece dentro da própria infância.

Some por volta dos sete.
5Por que apaga: quatro pistas
Aqui a ciência ainda não fechou a resposta. O que existe são pistas, cada uma vinda de um tipo de estudo. Nenhuma explica tudo sozinha.
1. O cérebro em obra
Em 2014, o neurocientista Paul Frankland e sua equipe, em Toronto, publicaram na Science um estudo com camundongos.6 O cérebro do filhote fabrica muitos neurônios novos no hipocampo, e esses neurônios entram no circuito mudando as ligações que já existiam. Uma imagem ajuda: é como mudar uma estante de lugar com os livros dentro. Alguns caem atrás do móvel.
Os pesquisadores testaram a ideia nos dois sentidos. Em camundongos adultos, aumentar a produção de neurônios novos depois de uma lembrança fez o animal esquecer. Nos filhotes, diminuir essa produção fez o animal lembrar mais.6
E houve uma pista elegante. Porquinhos-da-índia e degus, um roedor do Chile, nascem com o cérebro quase pronto e fabricam poucos neurônios novos depois do nascimento. Os filhotes dessas espécies não têm amnésia infantil, até os cientistas aumentarem a produção de neurônios novos. Aí passam a esquecer também.6


2. A linguagem
Na Nova Zelândia, as pesquisadoras Gabrielle Simcock e Harlene Hayne fizeram crianças pequenas viverem uma brincadeira diferente de tudo. Seis meses ou um ano depois, perguntaram como tinha sido. Nesse intervalo, as crianças tinham aprendido muitas palavras novas. Mesmo assim, para contar a brincadeira, nenhuma usou uma palavra que ainda não sabia no dia em que ela aconteceu.9 A lembrança ficou presa ao vocabulário daquela idade.
3. O "eu"
Para guardar uma lembrança como "aconteceu comigo", precisa existir um "eu". Segundo os psicólogos Mark Howe e Mary Courage, essa noção aparece no segundo ano de vida.10 É mais ou menos a idade, por volta dos 2 anos, em que a criança passa a se reconhecer no espelho: com uma mancha no nariz, ela leva a mão ao próprio nariz, e não ao reflexo. O teste foi descrito pela psicóloga Beulah Amsterdam em 1972.11

4. A família
A idade da primeira lembrança muda de cultura para cultura. Na Nova Zelândia, a pesquisadora Shelley MacDonald e colegas viram que, entre os maoris, a primeira lembrança tende a vir mais cedo, e ligaram isso ao costume de contar e recontar a história da família.12 Nos Estados Unidos, a psicóloga Qi Wang encontrou primeiras lembranças cerca de meio ano mais cedo entre americanos do que entre chineses.12 Para os pesquisadores, pesa o quanto os pais conversam com a criança sobre o que ela viveu.

Cérebro, palavra, eu e família.
6Apagou ou ficou trancada?
Se o cérebro reorganiza suas ligações, a lembrança de infância é apagada? Ou continua lá, e só o caminho até ela se perde?
Em 2018, a equipe de Toronto testou isso.7 Camundongos filhotes foram colocados numa caixa onde levavam um susto, e aprenderam a ter medo dela. Algum tempo depois, o medo tinha sumido. Tinham esquecido, como esperado.
Antes disso, porém, os cientistas tinham marcado no cérebro dos filhotes as células que estavam ativas na hora do susto, de um jeito que elas passassem a responder à luz. A técnica se chama optogenética. Já adultos, os camundongos receberam luz exatamente nessas células, e o medo da caixa voltou. A lembrança pôde ser reativada até três meses depois.7


Em 2023, um grupo do Trinity College, em Dublin, conseguiu de novo: memórias de infância "esquecidas" voltaram com luz em camundongos.8 O mesmo estudo trouxe um detalhe curioso. Num modelo usado para estudar o autismo, com filhotes machos de mães que tiveram o sistema imune ativado na gravidez, a amnésia infantil não apareceu.8
Pelo menos em camundongos, então, a lembrança de filhote não foi apagada. Ficou guardada, e o que se perdeu foi o acesso.
E em gente? Ninguém fez nada parecido em seres humanos, e esse tipo de teste não é possível em pessoas, pelo menos por enquanto. A equipe de Yale está mostrando a crianças vídeos caseiros gravados do ponto de vista delas quando eram bebês. Os primeiros resultados sugerem que a lembrança dura até a idade pré-escolar e depois some.5 Se some de vez ou fica trancada como nos camundongos, ninguém sabe.
Em camundongos, trancada, e não apagada.
7Resumindo
A gente não lembra de quando era bebê, mas não porque o bebê não grava. Ele grava, pelo menos um pouco. As pistas apontam para um cérebro que passa os primeiros anos em obra, mexendo nas próprias ligações, enquanto a criança ainda aprende as palavras e descobre quem ela é. Por volta dos 7 anos, a maior parte daquilo já ficou para trás. E a lembrança que você acha que é a primeira pode ser uma foto que você viu muitas vezes.
| O que se diz | Veredito |
|---|---|
| Bebês não gravam nenhuma lembrança. | Mito |
| A maioria das lembranças da primeira infância some por volta dos 7 anos. | Fato |
| Toda lembrança de antes dos 2 anos é inventada de propósito. | Mito |
| Uma história repetida muitas vezes pode virar uma lembrança. | Fato |
| Já foi provado que as memórias de bebê continuam guardadas no cérebro humano. | Mito |
Nos camundongos, o que fez a memória de infância perdida voltar?
Os cientistas marcaram as células ativas na hora do susto e, com o animal já adulto, acenderam uma luz nelas. O medo da caixa voltou.7
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Inscrever-se no Por Que Será?Fontes
- Freud S. Three Contributions to the Theory of Sex, seção "Infantile Amnesia", tradução de A. A. Brill.
- Rubin DC. The distribution of early childhood memories, Memory, 2000.
- Akhtar S et al. Fictional first memories, Psychological Science, 2018. Correção: errata de 2020.
- Bauer PJ, Larkina M. The onset of childhood amnesia in childhood, Memory, 2014.
- Yates TS, Turk-Browne NB et al. Hippocampal encoding of memories in human infants, Science, 2025. Yale News: Why don't we remember being a baby?
- Akers KG, Frankland PW et al. Hippocampal neurogenesis regulates forgetting during adulthood and infancy, Science, 2014.
- Guskjolen A, Frankland PW et al. Recovery of "lost" infant memories in mice, Current Biology, 2018.
- Power SD et al. Immune activation state modulates infant engram expression across development, Science Advances, 2023.
- Simcock G, Hayne H. Breaking the barrier? Children fail to translate their preverbal memories into language, Psychological Science, 2002.
- Howe ML, Courage ML. The emergence and early development of autobiographical memory, Psychological Review, 1997.
- Amsterdam B. Mirror self-image reactions before age two, Developmental Psychobiology, 1972.
- MacDonald S et al. Childhood amnesia: culture and gender differences, 2000. Wang Q. Culture effects on adults' earliest childhood recollection, 2001.
- Piaget J. Relato da falsa lembrança do sequestro, em Play, Dreams and Imitation in Childhood (1951), recontado em várias fontes secundárias sobre memória falsa.
- Loftus EF, Pickrell JE. The formation of false memories, Psychiatric Annals, 1995. Replicação: Murphy G et al. Lost in the mall again, Memory, 2023.


