contemporaneidade

Mesmo frente ao dinamismo das mudanças atuais, pensar que há 12 anos, quase ninguém tinha celular pode parecer assustador. Até certo tempo, não existia internet e, agora, estamos todos conectados em redes sociais, compartilhando fotos, arquivos e experiências pessoais. O novo mundo digital abriu não somente um novo mercado, mas um devir com novas disposições e potencialidades. Estamos, de fato, vivendo no mundo das possibilidades. Hoje, tudo pode: tudo pode ser produzido, tudo pode ser comprado, tudo está de certa forma ao nosso alcance.

mundo de hoje, mundo moderno

 

Entretanto, como nós, seres humanos marcados por uma falta, uma falha estrutural, estamos vivendo no mundo do “tudo é possível”? O mal-estar na civilização atual é marcado pelo imediatismo e dinamismo. Vemos pais que não possuem mais tempo para os filhos e filhos sem tempo para brincar, para fantasiar. Fantasia, esta, que deixou de pertencer à dimensão interna para ser exteriorizada em filmes e jogos. Saímos da dimensão ativa do pensamento para sermos agora pensados. Afinal, pensar e refletir estão fora de época.

A cada momento a estabilidade e os valores tradicionais vão perecendo, empurrando o ser humano a uma crise existencial, em razão do individualismo crescente, da competição capitalista e da ruptura de valores morais. O ser humano, que desde o início é orientado pela função paterna e materna, perdeu o seu guia. Hoje não há mais um caminho a ser seguido delimitado por convenções sociais e marcado pela tradição e pelo respeito às normas consagradas. O que por um lado é um avanço a liberdade, por outro é desolador por colocar o ser humano em um lugar estranho e hostil e deixa-lo para trilhar este lugar sozinho. Não nos surpreende, então, que aumente os sintomas de depressão, vazio, tédio e solidão.

O que mais encontramos hoje são sujeitos-mercadorias que se metamorfoseiam rapidamente para consumir o mais novo lançamento do mercado. Lançamento que se fundamenta na promessa de preenchimento do vazio existencial criado e que nunca se concretiza. A completude buscada a partir de objetos substutivos nunca é encontrada, o que nos deixa em um ciclo incessante de busca do inatingível.

E o que acontece com o eu, como instância intra-psíquica, quando este está dando lugar para um “eu compartilhado”, onde a experiência perde o seu valor de momento para demandar do outro o que foi perdido?

Exemplo: Curtidas do Facebook. Por acaso você já ficou sábado à noite em casa e entrou no Facebook? Podemos ver fotos de amigos na balada. E mais, podemos curtir ou não e essas informações são imediatamente enviadas para o celular da pessoa que postou. É completamente diferente de quando você conta uma história de algum dia do passado para alguém. Nesta, você revive no presente uma experiência já sentida e vivida, enquanto que quando no caso do Facebook a experiência, vivida e sentida, é modificada pelo compartilhamento.

Há, então, um apelo ao outro para qualificar uma experiência que antes pertencia somente à dimensão individual. O outro, e não mais a própria experiência, se torna a fonte do prazer ou da frustração.

mundo de hoje, mundo moderno

E ainda, dê uma olhada no seu perfil do Facebook e depois vá ao espelho e dê uma boa olhada para você. Quem é você e quem você se passa ser? O que mais podemos ver são pessoas sem falhas. Mostradas ao mundo pelas suas melhores fotos, do melhor ângulo, quando não é alterada por photoshop. A questão é que “errar é humano”, não é? Então… quem é que está lá?

Um ideal em forma de avatar. Uma realidade virtual que luta diariamente por curtidas para tentar ser sustentado. Você não tem 645 amigos. Provavelmente tem uns 5. E quer saber, 5 é muito mais do que 645.

Me responde uma coisa, o que é mais bonito pra você: Uma mulher ao vivo, com sua sexualidade, beleza, defeitos e falhas, ou uma mulher de capa de revista, sem nenhuma pintinha no corpo todo?

Eu poderia te perguntar a mesma coisa de uma forma diferente. O que você prefere: Se masturbar com uma fria imagem ou o calor dos toques de uma mulher?

Ficou fácil responder agora né? Mas para chegar aos toques de uma mulher você precisa sair da zona de conforto, assim como um passarinho precisa ter coragem de conseguir sair do ninho e pular para aprender a voar. A questão é que o ninho é muito mais confortável. Nele não há a frustração, o medo, a insegurança, o nervosismo que não se consegue controlar e todas aquelas sensações estranhas que se sente e não se consegue dar nome.

Lá fora você será feio, inseguro, extrovertido, medroso, bonito, corajoso, verde, azul, dependendo do dia, da pessoa e da situação. Para sair do ninho do Facebook, você precisa conseguir abandonar a imagem do ideal e aceitar a ideia de que vai ser bom para alguém, ruim para outra. Por que você acha que o Facebook não colocou o botão não curtir? Justamente para dar a você esta ilusão que o mundo lá fora não vai te dar.

As novas tecnologias na área da comunicação representam um grande avanço para o mundo atual. Entretanto, cabe a nós pensar para onde estamos avançando e o quê está ficando para trás.

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