O bom é inimigo do melhor

Essa emblemática frase não é de minha autoria. Os créditos dela temos que dar a Freud (1937). Foi utilizada por ele para afirmar que, no âmbito psíquico, um bom tratamento faz com que o tratamento mais eficaz fique cada vez mais distante. Mas como assim?

A dificuldade em fazer terapia

Fazer terapia não é fácil. Fazer terapia é tocar na ferida. É ter que lidar com coisas que gostaríamos de jogar debaixo do tapete e que fossem embora com o vento. Infelizmente, aquilo tudo que jogamos para debaixo do tapete só se acumula e cria raízes cada vez mais profundas. Não existem pílulas mágicas que vão resolver nosso problema para a gente de forma indolor. Methiolate pode até não doer mais, mas a terapia sempre terá suas doses de sofrimento.

Portanto, quando falamos de terapia, há sempre uma resistência à terapia. É propriamente a resistência a tocar na ferida. Há, ainda, um outro tipo de resistência que é a resistência a perder um ganho secundário que o sintoma pode nos providenciar. E é justamente no ganho secundário que reside a maior dificuldade do tratamento. O ganho secundário pode ser descrito como o ganho que advém do sintoma, sendo um ganho inconsciente que dificilmente temos acesso a ele sem que seja em meio a uma bola de neve que saiu do nosso controle. Não percebemos ou demoramos muito até perceber o que está errado. A questão é, de fato, complexa e muitas vezes nos encontramos em uma posição que já se tornou estável demais para se mudar ou um tipo de sofrimento que já é constante e presente demais para deixarmos ir embora.

O lado bom do ruim

É nessa hora que aquilo que é ruim pode ter seu lado bom. Vemos constantemente pessoas falando que gostariam de fazer terapia, que um dia vão fazer, mas não agora, ou até, “quando eu tiver tempo eu faço…” E quando é que realmente procuramos esse tratamento? Quando precisamos! É quando uma crise se instaura, quando os sintomas ficam exacerbados, quando não aguentamos mais! Um “surto” ou uma crise de qualquer tipo que seja denunciam algo muito maior. Algo que provavelmente já estava, em certo grau, presente há muito tempo de forma latente, constante, mas não de forma aguda suficientemente para nos levar a procurar ajuda.

Este momento pode, então, ser uma oportunidade de mudança. Algo que talvez se alastraria por anos e anos, podemos mudar justamente porque virou insuportável antes da hora.

O tratamento mais ou menos, o bom e o melhor

Agora, você, caro leitor (a), já deve ter percebido qual o sentido por trás da afirmação de que o bom é inimigo do melhor. Nas palavras de Freud, “em todas as fases do restabelecimento do paciente, temos de lutar contra sua inércia, que está pronta a se contentar com uma solução incompleta”.

Dessa forma, resolver parcialmente o problema é uma forma de manter o problema sempre ativo. É voltar ao que já era antes. É retirar o caráter insuportável que te permitiu procurar ajuda. E essa é uma das partes interessantíssimas da terapia. Um paciente procura terapia por um problema específico que ficou insuportável naquele momento. Quando esse problema deixa de ser insuportável, a terapia continua a avançar, buscando as raízes do problema e também se expandindo para outros aspectos da subjetividade humana.

Assim sendo, é importante buscar referências e procurar o melhor tratamento para o seu problema e não o mais fácil. Uma terapia “express” ou um Remédio pode ajudar bastante, mas podem também ter o efeito contrário. O remédio atua na causa e não no sintoma. É imensamente útil em diversos casos, mas em outra enormidade de casos ele só mascara o sintoma.

Sabe aquela velha frase: “Qualquer coisa é melhor que nada né?”

Talvez não.

 

Referência

FREUD, S. (1937). Análise Terminável e Interminável. Trad. J. SALOMÃO. In: Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 23, 241.

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